sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Uma nova ideia

Fiquei muito tempo sem escrever. Recentemente, surgiu a vontade de mãos dadas com várias ideias. Tenho respeitado todas, as que querem pular pro papel e as que querem crescer. Algumas, talvez até as mais fascinantes, ainda precisam ficar encubadas. De vez em quando sairão textinhos como os antigos. Não é o caso deste agora, apesar de não ser tão grande. Ele é o início de uma das novas ideias que mais me fascinam. A ideia surgiu na minha mente com a pretensão de ser grande. No entanto, queria deixar um pedacinho dela ver um pouco de luz, enquanto mantenho o resto em cativeiro: alguns pedaços até rascunhados já. Não sei se novos pedacinhos respirarão ar puro em breve, ou se sairá tudo de uma vez no futuro. Tudo dependerá dos rumos que a ideiazinha tomar e, principalmente, da minha vontade.

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Caindo
Como uma folha
Intensa com cada rajada de vento
Aceito cada nova tendência: aumentar
Não rejeito: diminuir
E diminuo.
Até cair: elegante, sem tirar nada do lugar.

A introdução e os primeiros versos

Já estava desforme, seu contorno queria ceder ao reboliço interno. Quinze passos até o banheiro. Tirou o cinto e deu dois passos até a pia. Duas enxaguadas de rosto. Um passo até o balcão, mais um de volta até a pia, de posse da escova de dente. Uma escovada rápida, outra cuidadosa entre os dentes. Dane-se o fio dental. Mais cinco passos até o quarto, contados a partir do balcão. Dane-se a roupa de dormir, bastava tirar a calça e estava pronta. Cada passo agitava ainda mais aquela mistura interna, e a força feita para se manter coesa era colossal.

A fôrma da qual precisava encontraria talvez ali sobre a cama, sabia bem. Deitou-se, ficou sentindo os segundos passarem, fitando o teto. Irritou-se quando viu que para ele o tempo não passava. Como pode?

Meteu-se a procurar a fôrma sem os olhos, para que pudesse se derramar e reservar, como se faz com gelatina quente. Bem que queria acordar com forma. Que fosse definitiva uma coesão que até então só durava um dia e precisava ser renovada toda noite. Estaria pronta. Pronta. Com o sabor que a vida lhe pedia, entregar-se-ia ao passar dos dias para ser digerida aos poucos, ora degustada provocantemente, ora triturada com ansiedade: um desgaste que feito assim não traz prazer algum.

Enquanto passava os dedos sobre a borda de madeira da cama, percebia que até isso tinha medo de perder. Aquela cama que na verdade eram todas as camas de solteiro sobre as quais já tinha se deitado, dentro de todos os quartos aos quais já chamara de seus. Eram uma só cama e um só quarto. Reviveu seu dia ali deitada, procurando os sabores. A proximidade de uma mudança da qual não estava mais certa tirava o gosto das coisas. Quando havia algum gosto, era azedo. Mastigar o dia fora tão difícil que preferia que lhe mandassem mastigar sua própria cama. E os dedos corriam sobre a madeira, acompanhados pela força que fazia ao morder o ar. Triturar o ar. Faltava pouco para agarrar a cama com força e dar-lhe uma dentada. Parecia ser a única forma de sentir o que era seu com intensidade.

Intensidade. Era isso. Faltou intensidade no que fora seu. Deixar pra trás aquilo sem dar um desfecho intenso, com cores berrantes e que não deixassem esquecer… ou quem sabe até uma suavidade pitoresca, notável pela fluidez perfeita dos tons: algo que não é intenso em si, mas quem sente percebe toda a intensidade… Deixar pra trás assim: era isso que não queria fazer. Percebia que o problema não era aceitar, era aceitar agora. Mas que diferença fazia? Por mais que agarrasse, beijasse, com toda a força do mundo, se dissesse “não agora” seria o mesmo que “não”. É a rejeição. O que importa é o agora. No futuro Ela não seria a mesma, ninguém seria o mesmo. Não existe futuro para quem está vive agora.

Mas também, será que essa é minha desculpa? Será que darei sempre essa desculpa? Não agora. Não agora. Parece que trato com uma criança. Depois. O doce? Depois. Brincar? Depois. Não agora. Agora não.

E foi então que se propôs investigar. Soltou a madeira. Relaxou a boca e deixou de morder o ar, que, aliás, já virara farofa. Mirou o teto, aproveitou o escuro e pediu que se iniciasse o filme das memórias. Sem coesão. Que se dane a coesão a essa altura! Queria as cenas, buscando intensidade: a palavra-chave da sua desculpa, ou quem sabe o consolo para a aceitação. E o cinema teve início.

Suspirou, beijou, riu, tremeu. Doeu. Gritou. As pernas tremeram, suou frio, desmaiou. Fez amor. Fez sexo. Até transou. Chorou. Viu chorar. Consolou, sentiu dó, deu de comer. Até salvou uma vida, pode-se dizer. Naquele dia salvou. Cochilou. Bebeu muito. O que aconteceu? Cochilou. Qualquer um diria que o roteiro básico pela vida estava feito. Mas era muito hollywoodiano, era a receita. Faltava intensidade. Faltava o fermento.

Dormiu.

Sentou-se à mesa, olhou para frente e sorriu. Um sorriso voltado para o futuro, carregado de aceitação presente e expectativa: o sorriso era um projeto. Não era falso, amarelo, porque o projeto era real, vivo e estava ali. Tinha contornos claros, definidos até demais. Dentro daqueles contornos Ela podia definir a si mesma. Não tinha medo de projetos, Ela mesma havia sido um por muito tempo. E agora que era projeto concluído, fazia os seus próprios. Mas se não era medo, também não poderia dizer que estava satisfeita. Sentia ali que era um projeto concluído com defeito: não refletia os objetivos de quem fizera a engenharia e, por isso, fazia brotar uma dúvida sobre todos.

Sendo observada do lado oposto, leu o cardápio. Delicada formalidade de quem conhece as opções melhor que o garçom contratado há cinco dias. Delicadeza com a qual acreditou brindar o rapaz que estampava um sorriso enorme no rosto ao cumprir as pequenas normas de sua função há pouco conquistada e da qual humildemente se orgulhava. Devia honrá-lo. Honrar. Riu.

“Nada não, rio de mim mesma. Estou lendo este cardápio como se ainda houvesse algo por descobrir. Ou como se o dono do restaurante fizesse seu trabalho com o mesmo carinho que faz esse garçom novo e tivesse tentado procurar alguma novidade para pôr aqui.”

Disse tudo de uma vez e baixou os olhos novamente ao cardápio. Dessa vez não para honrar alguém, mas para fugir dos olhos que a encaravam com curiosidade ímpar. Desembuchara tudo de uma vez, e não tivera tempo nem de respirar. Recebeu risos e o comentário que sabia que teria de volta. Odiou o gosto daquela previsibilidade. E do outro lado da mesa, alguém gostava daquilo. Ao sentir isso, viu o projeto dentro de uma caixinha, guardado no bolso do que se dizia seu par, prestes a ganhar o mundo. Ela não desgostava, era mais como um pouco de nojo. Era feia aquela sua imagem definida pelos contornos que deslizavam sobre a mesa. Queria desviar o olhar, deixar para depois. Para isso seria necessário garantir que a caixinha continuasse guardada. Seria preciso desviar outro olhar que não o seu:

“Eu rio, mas acho sério. A inércia é a lei das nossas vidas. Nós vivemos a mais completa falta de criatividade. Viver bem e viver mal são tão parecidos no seu jeito mais terrível: a inércia.”

Nada. Sentia a caixinha vibrando, querendo respirar. Insistiu de forma infantil:

“E, no entanto esse pobre rapaz é forçado a sair dela. Ora, se nem o porco do dono do restaurante sai!”

Quando a última palavra tomou o ar, teve a plena percepção de como soou. Sentiu raiva de si mesma, pois deu a deixa para uma resposta tão obvia quanto a anterior. Dessa vez a culpa era dela: o projeto se alimentava do obvio, e saltava querendo mais.

“É, eu sei, a esquerda já está fora de moda. Longe de mim. Nunca foi sobre isso.”, desistiu.

Foi então que o simpático garçom trouxe-lhes a bebida que já tinham pedido, e fez-lhe o favor de pôr fim ao momento perguntando se desejavam pedir a comida. Ela fez que sim, e foi acompanhada do outro lado da mesa. Era a chance de seguir na falta de criatividade e insistir desesperadamente contra o seu retrato que estava sobre a mesa.

“Vou querer arroz, feijão e bife com batata frita.”

Duas risadas brotaram: uma desconcertada e a outra achando graça mesmo. Estavam trocadas: Ela queria pôr sem graça a risada que estava sentada, e que a de pé achasse graça. Tudo parecia dar errado, e Ela mesma achou cômico quando se percebeu desejando ter um plano melhor.

Eu quero um plano contra o plano.

Aquele contra o qual lutava parecia infalível, estava em estágio muito avançado. Sem forças para mais besteiras, alimentou o projeto com um pouco mais do obvio. Foi acompanhada, como era de se esperar. Que passasse o tempo.

De repente, já acabara de comer e olhava para frente, tentando ser absorvida na conversa. Sentia a caixinha vibrar mais do que nunca, e ela quase saltava do bolso. Faltava pouco, poucas palavras, meras formalidades de uma falsa vergonha que era fingida pra Ela. Logo pra Ela, que nunca exigira um conto de fadas.

Foi feito o silêncio, os olhares se cruzaram e a caixinha encontrou sua hora. Saltou do bolso, levou consigo uma das mãos e meia dúzia de palavras. Quando se abriu, Ela pôde ver que lá dentro estava sua imagem, ou pelo menos alguém que parecia com Ela. Aquela imagem antes projetada era matéria pura dentro da caixinha. Diante disso não pôde dizer mais do que o obvio, e assim se deu sua aceitação. Foi sugada e de repente já era como a caixinha lhe mostrara que seria.

Chegava a sua casa do trabalho, esquentava a comida congelada, servia os seus à mesa e comia sua ração. Via TV. Chorava, ria e no final fazia sexo. Já aceitara plenamente o significado da palavra “obrigações” e só dormia para acordar no dia seguinte.

De repente, velha, sentiu que morria.

Acordou com forma, com a coesão de uma gelatina, que treme toda, mas não cede: caíra da árvore, madura e doce como o mundo pedia. Mas graças ao bichinho que lhe picara na noite anterior, começava a apodrecer.

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