sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Uma nova ideia

Fiquei muito tempo sem escrever. Recentemente, surgiu a vontade de mãos dadas com várias ideias. Tenho respeitado todas, as que querem pular pro papel e as que querem crescer. Algumas, talvez até as mais fascinantes, ainda precisam ficar encubadas. De vez em quando sairão textinhos como os antigos. Não é o caso deste agora, apesar de não ser tão grande. Ele é o início de uma das novas ideias que mais me fascinam. A ideia surgiu na minha mente com a pretensão de ser grande. No entanto, queria deixar um pedacinho dela ver um pouco de luz, enquanto mantenho o resto em cativeiro: alguns pedaços até rascunhados já. Não sei se novos pedacinhos respirarão ar puro em breve, ou se sairá tudo de uma vez no futuro. Tudo dependerá dos rumos que a ideiazinha tomar e, principalmente, da minha vontade.

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Caindo
Como uma folha
Intensa com cada rajada de vento
Aceito cada nova tendência: aumentar
Não rejeito: diminuir
E diminuo.
Até cair: elegante, sem tirar nada do lugar.

A introdução e os primeiros versos

Já estava desforme, seu contorno queria ceder ao reboliço interno. Quinze passos até o banheiro. Tirou o cinto e deu dois passos até a pia. Duas enxaguadas de rosto. Um passo até o balcão, mais um de volta até a pia, de posse da escova de dente. Uma escovada rápida, outra cuidadosa entre os dentes. Dane-se o fio dental. Mais cinco passos até o quarto, contados a partir do balcão. Dane-se a roupa de dormir, bastava tirar a calça e estava pronta. Cada passo agitava ainda mais aquela mistura interna, e a força feita para se manter coesa era colossal.

A fôrma da qual precisava encontraria talvez ali sobre a cama, sabia bem. Deitou-se, ficou sentindo os segundos passarem, fitando o teto. Irritou-se quando viu que para ele o tempo não passava. Como pode?

Meteu-se a procurar a fôrma sem os olhos, para que pudesse se derramar e reservar, como se faz com gelatina quente. Bem que queria acordar com forma. Que fosse definitiva uma coesão que até então só durava um dia e precisava ser renovada toda noite. Estaria pronta. Pronta. Com o sabor que a vida lhe pedia, entregar-se-ia ao passar dos dias para ser digerida aos poucos, ora degustada provocantemente, ora triturada com ansiedade: um desgaste que feito assim não traz prazer algum.

Enquanto passava os dedos sobre a borda de madeira da cama, percebia que até isso tinha medo de perder. Aquela cama que na verdade eram todas as camas de solteiro sobre as quais já tinha se deitado, dentro de todos os quartos aos quais já chamara de seus. Eram uma só cama e um só quarto. Reviveu seu dia ali deitada, procurando os sabores. A proximidade de uma mudança da qual não estava mais certa tirava o gosto das coisas. Quando havia algum gosto, era azedo. Mastigar o dia fora tão difícil que preferia que lhe mandassem mastigar sua própria cama. E os dedos corriam sobre a madeira, acompanhados pela força que fazia ao morder o ar. Triturar o ar. Faltava pouco para agarrar a cama com força e dar-lhe uma dentada. Parecia ser a única forma de sentir o que era seu com intensidade.

Intensidade. Era isso. Faltou intensidade no que fora seu. Deixar pra trás aquilo sem dar um desfecho intenso, com cores berrantes e que não deixassem esquecer… ou quem sabe até uma suavidade pitoresca, notável pela fluidez perfeita dos tons: algo que não é intenso em si, mas quem sente percebe toda a intensidade… Deixar pra trás assim: era isso que não queria fazer. Percebia que o problema não era aceitar, era aceitar agora. Mas que diferença fazia? Por mais que agarrasse, beijasse, com toda a força do mundo, se dissesse “não agora” seria o mesmo que “não”. É a rejeição. O que importa é o agora. No futuro Ela não seria a mesma, ninguém seria o mesmo. Não existe futuro para quem está vive agora.

Mas também, será que essa é minha desculpa? Será que darei sempre essa desculpa? Não agora. Não agora. Parece que trato com uma criança. Depois. O doce? Depois. Brincar? Depois. Não agora. Agora não.

E foi então que se propôs investigar. Soltou a madeira. Relaxou a boca e deixou de morder o ar, que, aliás, já virara farofa. Mirou o teto, aproveitou o escuro e pediu que se iniciasse o filme das memórias. Sem coesão. Que se dane a coesão a essa altura! Queria as cenas, buscando intensidade: a palavra-chave da sua desculpa, ou quem sabe o consolo para a aceitação. E o cinema teve início.

Suspirou, beijou, riu, tremeu. Doeu. Gritou. As pernas tremeram, suou frio, desmaiou. Fez amor. Fez sexo. Até transou. Chorou. Viu chorar. Consolou, sentiu dó, deu de comer. Até salvou uma vida, pode-se dizer. Naquele dia salvou. Cochilou. Bebeu muito. O que aconteceu? Cochilou. Qualquer um diria que o roteiro básico pela vida estava feito. Mas era muito hollywoodiano, era a receita. Faltava intensidade. Faltava o fermento.

Dormiu.

Sentou-se à mesa, olhou para frente e sorriu. Um sorriso voltado para o futuro, carregado de aceitação presente e expectativa: o sorriso era um projeto. Não era falso, amarelo, porque o projeto era real, vivo e estava ali. Tinha contornos claros, definidos até demais. Dentro daqueles contornos Ela podia definir a si mesma. Não tinha medo de projetos, Ela mesma havia sido um por muito tempo. E agora que era projeto concluído, fazia os seus próprios. Mas se não era medo, também não poderia dizer que estava satisfeita. Sentia ali que era um projeto concluído com defeito: não refletia os objetivos de quem fizera a engenharia e, por isso, fazia brotar uma dúvida sobre todos.

Sendo observada do lado oposto, leu o cardápio. Delicada formalidade de quem conhece as opções melhor que o garçom contratado há cinco dias. Delicadeza com a qual acreditou brindar o rapaz que estampava um sorriso enorme no rosto ao cumprir as pequenas normas de sua função há pouco conquistada e da qual humildemente se orgulhava. Devia honrá-lo. Honrar. Riu.

“Nada não, rio de mim mesma. Estou lendo este cardápio como se ainda houvesse algo por descobrir. Ou como se o dono do restaurante fizesse seu trabalho com o mesmo carinho que faz esse garçom novo e tivesse tentado procurar alguma novidade para pôr aqui.”

Disse tudo de uma vez e baixou os olhos novamente ao cardápio. Dessa vez não para honrar alguém, mas para fugir dos olhos que a encaravam com curiosidade ímpar. Desembuchara tudo de uma vez, e não tivera tempo nem de respirar. Recebeu risos e o comentário que sabia que teria de volta. Odiou o gosto daquela previsibilidade. E do outro lado da mesa, alguém gostava daquilo. Ao sentir isso, viu o projeto dentro de uma caixinha, guardado no bolso do que se dizia seu par, prestes a ganhar o mundo. Ela não desgostava, era mais como um pouco de nojo. Era feia aquela sua imagem definida pelos contornos que deslizavam sobre a mesa. Queria desviar o olhar, deixar para depois. Para isso seria necessário garantir que a caixinha continuasse guardada. Seria preciso desviar outro olhar que não o seu:

“Eu rio, mas acho sério. A inércia é a lei das nossas vidas. Nós vivemos a mais completa falta de criatividade. Viver bem e viver mal são tão parecidos no seu jeito mais terrível: a inércia.”

Nada. Sentia a caixinha vibrando, querendo respirar. Insistiu de forma infantil:

“E, no entanto esse pobre rapaz é forçado a sair dela. Ora, se nem o porco do dono do restaurante sai!”

Quando a última palavra tomou o ar, teve a plena percepção de como soou. Sentiu raiva de si mesma, pois deu a deixa para uma resposta tão obvia quanto a anterior. Dessa vez a culpa era dela: o projeto se alimentava do obvio, e saltava querendo mais.

“É, eu sei, a esquerda já está fora de moda. Longe de mim. Nunca foi sobre isso.”, desistiu.

Foi então que o simpático garçom trouxe-lhes a bebida que já tinham pedido, e fez-lhe o favor de pôr fim ao momento perguntando se desejavam pedir a comida. Ela fez que sim, e foi acompanhada do outro lado da mesa. Era a chance de seguir na falta de criatividade e insistir desesperadamente contra o seu retrato que estava sobre a mesa.

“Vou querer arroz, feijão e bife com batata frita.”

Duas risadas brotaram: uma desconcertada e a outra achando graça mesmo. Estavam trocadas: Ela queria pôr sem graça a risada que estava sentada, e que a de pé achasse graça. Tudo parecia dar errado, e Ela mesma achou cômico quando se percebeu desejando ter um plano melhor.

Eu quero um plano contra o plano.

Aquele contra o qual lutava parecia infalível, estava em estágio muito avançado. Sem forças para mais besteiras, alimentou o projeto com um pouco mais do obvio. Foi acompanhada, como era de se esperar. Que passasse o tempo.

De repente, já acabara de comer e olhava para frente, tentando ser absorvida na conversa. Sentia a caixinha vibrar mais do que nunca, e ela quase saltava do bolso. Faltava pouco, poucas palavras, meras formalidades de uma falsa vergonha que era fingida pra Ela. Logo pra Ela, que nunca exigira um conto de fadas.

Foi feito o silêncio, os olhares se cruzaram e a caixinha encontrou sua hora. Saltou do bolso, levou consigo uma das mãos e meia dúzia de palavras. Quando se abriu, Ela pôde ver que lá dentro estava sua imagem, ou pelo menos alguém que parecia com Ela. Aquela imagem antes projetada era matéria pura dentro da caixinha. Diante disso não pôde dizer mais do que o obvio, e assim se deu sua aceitação. Foi sugada e de repente já era como a caixinha lhe mostrara que seria.

Chegava a sua casa do trabalho, esquentava a comida congelada, servia os seus à mesa e comia sua ração. Via TV. Chorava, ria e no final fazia sexo. Já aceitara plenamente o significado da palavra “obrigações” e só dormia para acordar no dia seguinte.

De repente, velha, sentiu que morria.

Acordou com forma, com a coesão de uma gelatina, que treme toda, mas não cede: caíra da árvore, madura e doce como o mundo pedia. Mas graças ao bichinho que lhe picara na noite anterior, começava a apodrecer.

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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

08/09/2011

DA LEVEZA DE QUEM ENGATINHA NO TETO



(preciso confessar)

eu tenho medo do escuro.

Quando todos se deitam, e sobra algo para fazer, faço correndo. Passo a chave pela última vez na porta, coloco o copo vazio na pia, desligo a luz e vou o mais rápido que posso para a cama. Minha última lembrança sempre é de que lá estou seguro. seguro para morrer. Não corro de monstros, não corro de bandidos, de fantasmas… corro para os fantasmas, que já estão à minha espera. Eles não têm forma, não têm porquê, mas sabem me encontrar.

E encontram:

Não sei explicar, mas acontece comigo. eu encaro o teto e sinto que ele vai me engolir, me punindo por ser tão pequeno. Pouco importa se pequeno ambicioso ou pequeno conformado. sou pequeno e mereço ser engolido! Parece que tudo que já fiz escapulirá pelas minhas mãos, e que não há tempo para mais nada. Nem tempo, nem chance: sou pequeno, e ainda serei pequeno no último segundo. E não há o que possa fazer, porque os pequenos nada fazem. Estão sempre engatinhando e é assim que vou também: engatinho.

(E preciso poder ir pra onde quiser. engatinhando.) A instabilidade pune.

sou instável, e por isso não fico de pé. eu consigo me apoiar em algo e escalar debilmente, mas olho para o lado de relance e o apoio some. Não sou estável! Não posso ficar em pé sozinho e já engatinho de novo. É deprimente. Mas há algo nisso que eu gosto: os tombos são sempre novos, e eu prefiro tombar a fechar os olhos e acreditar que o apoio está sempre ali.

E é por isso que eu busco a leveza. Já não sou estável. Se não for leve também... serei deselegante; os tombos serão como estrondos e sacudirão mais do que devem. É preciso ser leve, para que os tombos sejam suaves, e eu possa sentí-los. Devagar, devagar…

(disse que abro os olhos e os apoios somem.) Não serei tão precipitado: nem todos são tão imediatos. Há os outros. É singular cada vez que dois engatinham e se apóiam para conseguirem ficar de pé. É um apoio diferente. Não é uma crença, não é eterno. Bem sei que eles também sumirão, ou irão embora. Talvez queiram engatinhar de novo. Se tudo for leve, cairão feito plumas. Dois parecerão novamente um e um, para quem olha desatento. E eu também caio. É tão bom…

Não posso perder a leveza e pintar os outros de crenças. Pintar os outros de imóveis, absurdo: somos pequenos, nunca deixamos de ser. Não poderia esquecer que estou aqui para engatinhar. (Por um segundo já esqueci.) A falsa sensação que eu tenho ao estar apoiado, de pé.

Como é difícil estar bem com isso! buscava ficar de pé, pensar como quem anda. E agora… corro para a cama para ser quem eu devo ser. Para ter medo, e ser engolido. (quero estar de pé; quero engatinhar). E no último segundo estarei pequeno, engatinhando. Finalmente engolido.

Já quando engatinho, tenho tanta vergonha do que me importava quando estava de pé! fico corado sozinho só de pensar naquelas besteiras. E as besteiras me olham com tom de reprovação. Elas me acham louco. Tentam me capturar, mas não será agora. fujo por entre suas pernas apoiadas tão fragilmente.

O que vale aquilo tudo, afinal? (E é quando estou engatinhando que) olho pra cima, vejo aqueles que estão apoiados em algo mais vazio, menor do que eles mesmos, achando que pequenos já não são mais. Olham pro chão com nojo, com arrogância (disfarço um riso: nos outros, nos outros!). engatinho embora. Não me importo.

Na minha instabilidade encontrei a leveza que procurava. E agora posso ficar de pé, e tombar. Parece até que o que é estável pesa. Será que o é porque assim cai-se mais rápida e duramente, a fim de lembrar-se de engatinhar? Há quem não lembre. Há quem não lembre de ficar em pé. Não me fecho.

Já dormi.

sonho.

Estou de pé e não consigo tombar.

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Acordo de pé, mas minhas pernas tremem. Ando, me apoiando, um dia inteiro. Minhas pernas tremem. caio de joelhos. (Ufa.) engatinhando vai demorar bem mais pra chegar até lá.

14/11/2008


QUERO FALAR COM VOCÊ


"É... mas como o tempo passa!" - aquela conversa de sempre.
"É..."
"Olha só quantos anos passaram desde aquele acidente!"
"Qual deles? A gente hoje em dia só sabe de acidente."
"Sabe que quando eu ligo a TV, sei que verei dois tipos de coisa: acidente e reportagens sobre nós mesmos."
"Não entendi... 'nós mesmos'?"
"Eu entendo o que você quer dizer."

Todos levantaram a cabeça. Era o primeiro Natal no qual ele se manifestava. Prosseguiu:

"Tá tudo uma bosta. Não dá pra fugir disso. Aí eles botam essas reportagens sobre culinária, sei lá, sobre os jovens ou algo assim para que não nos esqueçamos de sermos nós mesmos, não nos rebelemos. Mas eles também se enganam."
"É... Tá certo..."

Era sempre assim que acabava, por isso que não se manifestava. Ficou surpresa que o rapaz o fizesse. Preferia-o quando ele era pequeno: brincava e abria a boca para falar coisas com sentido. Agora ele faria parte do grupo que falava "d'eles", essas pessoas que ninguém sabe quem são, mas sempre se fala delas. Todos extremamente convencidos de que estão sendo enganados, inebriados por um tipo de SOMA, e ainda assim assistem novela, falam da vida dos outros e tomam café.

Já não pedia mais ao seu Querido que fosse à ceia da sua família. Ficava lá por pouco tempo mesmo, presente só para não magoar a velhice de ninguém. Não podia mais com esses papos de entendidos. Ela era burra, irônica, e alienada.

Correu a mão pela testa para limpar o suor que não existia, mas estava ali. Como foi penoso ficar lá. Entrou no carro e quando estava dando a partida, seu celular começou a tocar. Olhou a identificação de chamada: sua mãe. Ah, não. Ele já estaria, a essa altura, preparando um incrível jantar no quarto e sala modesto em tamanho, mas bem equipado pelos dois. Tocou de novo o celular. Tirou-lhe o som, não queria atender. Chega de boa ação natalina.

Agradeceu por ser Natal. Pôde viajar à sua maneira por um caminho do tamanho que bem entendesse. Idas e vindas em um espaço inabitado, eternamente naquela noite, sem sombra de piedade ou tal-amor. Ondas vão e vêm e não se sabe porquê. Há quem diga que há uma ordem física, mas complexa demais para o estudo humano, uma ordem realmente caótica. Outros falam de deuses. Não é a mesma coisa? Ela acreditava nele, e em quase mais nada. Isso que importava. É impossível viver sem acreditar, e, no fim, é pura fé mesmo. A pedância dos Homens fê-los crer que é possível explicar-se. Por isso gostava das crianças. Gostava dele por isso também. Sempre soube que ele acreditava nela porque precisava disso. Queria estar com ela, e se duvidasse não poderia. O mesmo valia para ela, claro. Essa é a face da verdadeira confiança. No fim, tudo é fruto de uma pirraça infantil. Não há convencimento real. Nossa lógica é, encaremos, emocional.

Deu-se por Querida e acordou. O caminho acabara e o elevador foi rápido. Os braços dele bem sabiam como ela estivera sozinha e envolveram-na como da vez primeira. Quando o único sentido se fez, puderam fazer seu Natal.

Não sabia se no fundo ele era tão desacreditado quanto ela. Com certeza era influcienciado, é inevitável. A grande questão de perceber-se alieando é a consequência imprevisível. Depende, quem sabe, de uma pré-disposição, ou de outra inexplicação. É bem possível que tudo se revele grandioso, porque a surpresa de ser diante de tamanho vazio teatral é bela. Tudo podia não ser. Todavia, é possível que o ar fique denso e seco, o corpo pese e o metabolismo se inverta. É como estar envolto em uma gelatina amorfa e quente.

Ela tinha um ar triste, mas não era o corpo às avessas.

No dia seguinte ligou para sua mãe. Não podia fingir, afinal, que nunca soube da chamada perdida. Por um instante que demorou a passar temeu pela sua alienação. Por que mamãe teria insistido tanto em ligar se cinco minutos antes estiveram juntas? Temeu porque se encolheu ao pensar na possibilidade daquela não mais ligar, talvez sua velhice cansasse de estar. Sua alienação parecia fugir das suas mãos e a tal gelatina dissolvia-se em nada. Era medo de ver que não podia fugir de uma realidade - paralela a tudo - que o Humano criara. É bem verdade que não gostava da gelatina, não se sentia bem, mas com ela não havia apego, pelo menos. Não com certos laços que dão medo. Dão medo e fazem chorar, só.

"Oi, filha!"

05/07/2009


MAR E ANA

Vem cá, menina, não chore. Deixe-me ver seu rosto. É, você é linda chorando. E feliz? Vai me dar a chance de descobrir?

Hum?! Isso foi um sorriso? Não escutei o que você disse. Tome coragem, bote pra fora o que a incomoda. Não quer contar?

Então vem comigo, me dê a mão. Vou mostrar o mar pra você.

Pode vê-lo? É claro que pode. O que achou? Pensando bem, não serei precipitado. Encare-o por um tempo, e aproveite para falar da sua angústia.

Entendo bem. É, sim, compreendo o que quer dizer. Agora, pegue este lenço e enxugue o rosto que, apesar de tudo, eu já estou ficando nervoso de ver seu rostinho assim.

Certo, pronto. Moça... Moça? Não, espere... Seu nome? ... Ana? Bonito. Mas que absurdo, Ana, veja só: fui saber antes o nome dos seus problemas que o seu próprio. Injusto, injusto.

Mas sabe, Ana... Que complicado! Como vou explicar? Não há como você saber se você está certa. Não há provas. Na verdade, querida, não há provas de que exista ou não qualquer prova. Percebe a gravidade das coisas? Não há uma forma eficaz e indubitável de chegar a qualquer resposta. O fundamento dos nossos pensamentos é a ignorância!, o complexo ignorar de tudo que não nos é tangível. Aí está: nada é tangível.

Nós somos personagens de um livro. O que personagens podem saber da verdade? Nada! Nunca vão ter uma visão além das páginas. Então por que se perturbar com algo sem solução? Só faria perder a graça e o sentido das únicas coisas que podemos saborear. Vamos saborear as páginas! Que tal?

É, eu sei, pequena... Nós dois podemos até ser apenas o reflexo das nossas almas. Pior: eu posso ser o reflexo dos devaneios da sua alma! Imagina, então... é o seu pior receio. Mas ele nunca se confirmará, porque, sem ofensas, você é ignorante – como eu já disse. “Que benção”? O que é pior: o medo de ser eterno ou realmente ser eterno?

O seu medo da eternidade é medo da solidão. E se você for uma e o resto for criação sua, na busca por companhia para um momento?

Aninha, o que eu quero mostrar é que o pior é o medo. Sim, o receio. Esquece o medo! Passa a ignorá-lo como você ignora as respostas. Temer uma dúvida é uma verdadeira tragédia. Prefira um romance ou uma comédia à tragédia! Aliás, Ana, quando for chorar novamente, pare e lembre-se de mim. Então, escreva! Sobre o que? Ora...

Olhe pro mar de novo. Ele é eterno, não é? Não é assim que você o vê? Escreve sobre a eternidade dele, coitado. Investigar o sofrer é um exercício de existência. Exista.

Agora eu peço perdão. Ai, desculpa por fazê-la chorar. Não queria deixá-la assim, mas é preciso. Devo voltar ao resto. Não posso apenas escrever pra sempre. Tenho que trabalhar, sabe. Perdão por deixá-la nessas páginas, eterna.

Mas escreve também, Ana. Investigue o mar! Exista!
Não tenha medo da sua eternidade.

24/12/2008


ERA

Há péssimas boas idéias. É verdade, não há boa idéia que se não for tratada não definhe. Não é necessário mudá-la, basta tratá-la.

Jantar naquele lugar de sempre, excelente, luxo de poucos que trabalham ou trabalharam muito. A horrível, deplorável boa idéia deles foi essa, justamente.

Pediram o mesmo prato de sempre, o garçom já lhes veio com a simpatia especial: eram antigos clientes.
Era tudo bom, como havia de ser. Antes não fosse! O inferno nem sempre está abaixo. Nesse encontro em que as mastigadas são as palavras, o sim é o não. Os pescoços estavam imóveis, traindo-se com a novela que passava na TV do estabelecimento. As mãos cortavam às cegas a comida e a entregavam ao destino... Que cena!

Ah! Antes estivesse tudo errado, o salmão mal temperado, ou o garçom viesse com grosserias. Poderiam então se olhar, cúmplices naquela insatisfação e na urgência de buscar uma solução conjunta. Abririam os ouvidos - essas portas que alguns teimam em fechar - um para o outro.

Mas por que ficaram assim? Como foi possível? Foi porque acharam que deveria ser. Era o certo. Todo o esforço para ter essa estabilidade e poder ver TV e comer até o fim. E cuidar dos netos de vez em quando.

Tinham certeza, sim. Certeza de Muito Vivido, que bate o pé e não cede. Talvez estivessem convencidos de que aquilo era felicidade. Ninguém poderia lhes dizer o contrário. Quem sabe fosse felicidade mesmo; alguém teria coragem de atentar contra a alegria do outro? No entanto, talvez... uma reflexão nunca faz mau. 

Talvez se o cozinheiro tivesse se enganado, ou o garçom errado, teriam feito um favor.

Um grande favor que lhes causaria espanto, indignação... só que no fim perceberiam e seriam gratos de alguma forma. E por "fim" não se deve pensar O Fim, porque esse, graças à descoberta que fariam, estaria longe como há anos não estivera.

27/02/2009


... a conjectura da união infinita de aquários

Nasceu, diz-se, um peixe que podia pensar, no sentido mais humano da coisa. Gastava seu tempo pensando, e acreditava que assim estava mais próximo da existência correta que seus familiares "irracionais".

Um dia, um familiar querido morreu. Depois do abatimento pela sensação de perda, reparou que os outros peixes não perceberam a magnitude daquele acontecimento. Entendeu, como que numa confissão que a Natureza lhe fazia: como aquele, muitos já tinham vindo e ido, como se todos nada fossem. Ele, um dia, também nada seria.

Nesse mundo de crueldade pisciana nada astrológica, muitos já tinham vivido, copulado, sido importantes para seus familiares, e hoje... hoje não havia rastro deles! 

Espantado com tal conclusão, passou a atentar às outras curiosidades do dia-a-dia. Ateve-se a uma em especial: sua alimentação. É, bem aquilo que fazia impulsivamente todos os dias, assim como seus amigos-peixes irracionais. Exatamente uma das pequenas coisas que o faziam, ainda, peixe.

Reparou, intrigado, o fato de que todos os dias surgia comida por aí. Estranho era que a chegada da refeição era marcada por um fenômeno natural: as cores do infinito mudavam, e surgiam formas engraçadas.

Ah sim! "Infinito" foi como resolveu chamar o limite do seu ir e vir, da sua percepção normal. Não significava o sem-fim. Infinito era o que havia além do que ele poderia alcançar. Além de até onde conseguia nadar. As imagens vindas de lá eram distorcidas, tristemente indecifráveis. Não esperava ter explicações lógicas obvias para o além. Provavelmente não cabia à sua existência dar-se conta daquilo (quanto mais compreendê-lo), assim como não era naturalmente arquitetado que seu nível de consciência fosse o que veio a ser.

Algo de diferente acontecia naquele Infinito. Fosse o que fosse, lhe permitia viver. Peixe sabia disso, e temia que Aquilo que lá se mexia e lhe dava o necessário para a subsistência se esquecesse dele, ou pior: parasse de gostar dele. Deu-Lhe um nome, que não "Aquilo", pois chamar tão banalmente uma coisa que lhe era tão vital parecia uma heresia. Chamou de "Homem".

Homem nunca falhou. Peixe morreu antes que lhe faltasse comida. Ele não foi o único.

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Nasceu, diz-se, um Homem capaz de estudar a si próprio, e investigar a Natureza. Contemplava o Infinito desejoso de respostas.

Chamava de Infinito aquilo que parecia fugir-lhe à compreensão; justamente pela forte intuição de que não era o planejado da Natureza ter o além ao alcance da percepção humana.

O Homem deu o nome de Deus àquilo que fazia as partículas subatômicas permanecerem unidas, os buracos negros se formarem  - e manterem, quem sabe, coesas as galáxias -, as estrelas nascerem, e o mais importante de tudo... Todos esses fatos serem tão estáveis e duradouros comparados ao seu tempo de vida que pareciam-lhe eternos. Ah, a eternidade...

Morreu sem que Deus faltasse um dia sequer. Ele não foi o único.

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Nasceu, diz-se, um Deus capaz de...

Chamava de Infinito...

Deus deu o nome de ...

Morreu sem que ...

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29/10/2008



e se fosse terça?

Nunca pensou que correria sábado à noite. Não houve, no entanto, alternativa melhor para sair do marasmo deprimente no qual se encontrava.. Que tenha passado outras noites de sábado só... Isso é obvio. Mas há vezes em que a solidão ultrapassava os limites suportáveis.

Escolheu a Lagoa. Levou um aparelho para ouvir música e o telefone celular na esperança de receber aquela ligação que poria fim a toda essa bobagem metafísica.

Começou a corrida ouvindo jazz, estilo que muito combinava com o ambiente a sua volta. A estranha neblina noturna não respeitava o seu limite e trespassava sem dó, mas com delicadeza, seu corpo. Sentia-se inexistente. Não mais só como pessoa, mas só como uma vida em meio a tantas outras coisas. Essa nova realidade mudou tudo: que importava um sábado à noite só? Que fosse assim, tão melhor nessa breve parte de sua não-existência.

Os carros passavam mais rápido que corria em seu ritmo constante. As luzes dos faróis se misturavam, chegando aos seus olhos fracas e indefinidas. O barulho do movimento mecânico já era uma trilha sonora melhor que o jazz – era música do mais refinado tipo. A água escura – esqueça-se que poluída – da Lagoa em leves ondulações... Ah, o que é sábado à noite? Qual a importância disso tudo?!

Prestes a iniciar um movimento eterno, circular como o local e as idéias impunham, avistou uma parte da Lagoa em que havia restaurantes, ali mesmo, entre os caminhos a serem percorridos. De súbito, surgiram pessoas, muitas pessoas. Tal qual a luz agressiva que invade a escuridão, aqueles tomaram sua solidão.

Nem um pouco vexados por desrespeitar o espaço particular de alguém, não se deram por satisfeitos e ainda foram em grupos de dois! Casais? Triste para quem corresse só – sinceramente, quem o faria a essa hora? -, mas se fosse perguntar-lhes... diriam: "Sim, estamos juntos", com um sorriso bobo e distraído de quem vive um bom sábado à noite.

Parou de correr, porque sua calma solidão já não mais existia. Fora muito exigente... que correspondência, que nada! Que seja! Pegou o celular e re-discou um número recente:

"Querido... Não dá, eu topo sua sugestão. Esquece o que eu disse. Cê ainda pode??"

Foi para casa se arrumar. Ai, como dói essa bobagem metafísica. Naquele sábado amaria.

E amou. Amou como a Lagoa e os carros passando a ordenaram, mas ela custou tanto a ouvir... Amou como pessoa.

21/10/2008


Na ordem crescente de preferência, salvo o último que chegará por ser o mais recente.

VOO NO VÁCUO

Espirrou tantas vezes, logo após o acordar, como o costume ordenava. Seguiram-se momentos de incômodo nasal, e despertou. Veja bem, por mais que essa informação pareça descartável ou desagradável, não é assim que as coisas vão e vêm. Espirrar por si só pode ser tudo, nada, alguma coisa.

Há quem só acorde, e há quem acorde e só espirre. Essas pessoas não despertam, não. Ficam na água quente, esperando que a venha morna ou fria, sem tempo, sem noção.

"Mas que merda de espirro. Quem dera que você não mais espirrasse assim".

De imediato balançou a cabeça como quem diz "não". Não.

Tomou o café e foi para o trabalho. Não há o que dizer. Até porque se fosse perguntado sobre o dia, a resposta seria vazia – não nula, mas vazia.

Depois de um tempo indizível, a epopéia vital de uma mosca, ou sabe-lá-quantas mitoses, chegou em casa.

De repente, um som fora de tom. Um gosto... mas é água! "Fiz um lanchinho pra você". Que doce, que verdadeiramente doce!

Contam por aí que o dia tem vinte e quatro horas. Perdão. Duas dúzias? Mentira sem-vergonha! O dia começa quando se dá por gente, passa uma mosca, geralmente, e volta à noite. É uma pena, mas muitas vezes o dia foge do sol, ou quem sabe foge-se de favor ao astro.


Ao deitar-se, beijou com carinho, como quem diz: Calma! Toda essa parte passa. E antes que nós, por vez, passemos, vamos estar juntos!
Puxou o cobertor e espir-rou.