Acordada havia quinze minutos ou três horas, olhando o texto e bem fugindo da luz nublada lá de fora. Esquecida de nadar contra o fluxo, não levantava. Em momento algum se perguntaria o porquê de sair daquele estado. Sairia quando saísse. Que ser sabido de onde olhar poderia entender isso? Ser, sido. Levantou para comer. Fome não tem nome.
Fome não tem nome
Sem porquê
Somos nós: o câncer que se sabe
Que não vence
Ego inexistente
Aceita desexistir.
Desexistir
Desistir
De existir.
(Não é morrer)
sexta-feira, 6 de abril de 2012
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Telephonista
Bom dia, me ligue com aquela moça que acordou pensando em me dizer algo. Só dela quero ouvir coisas, e só aquele algo eu quero ouvir. Canso-me do que é meu, e pra ser sincero já estou cansado de mim. Não sei nem como me aguento. Você se aguenta, Telephonista? Eu já estou farto mesmo deste telefone, pelo qual só se fala alto e bem claro, com boa dicção para que tudo se entenda. Entender tudo é chato, né? Já é uma aflição na hora em que atendo, sei que serei obrigado a decifrar e não gosto. Decifrar-me já é um trabalho penoso que paga mal, decifrar os outros é escravidão. Ai que tédio esse fio preso que já parece me contar que nada daqui vai dar em lugar algum. De boa dicção e ideias claras não se vai a lugar algum, já devia saber. Sinto falta do sussurrado nessa conversa. Não adianta tentar falar sussurrado, Telephonista, não precisa, ninguém nos ouve mesmo. Não é sussurrado de segredo, então. Entende? O sussurrado aqui não existe, é apenas voz baixa saindo do mesmo aparelho. Não tem o ritmo da respiração e não tem o calor da pele. O segredo é o de menos. Não vá se meter a falar sussurrado com os clientes, agora. E não vá sair do trabalho gritando que trata-se de escravidão. Amanhã olha o telefone, que eu ligo de novo. Saberá que sou eu, porque além da voz reconhecerá a falsa procura pela moça que acordou pensando em dizer algo. Poderemos sussurrar contra este aparelho, na nossa brincadeira. E um dia nos esbarramos. Até, Telephonista.
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