Não peço rascunho para falar de liberdade. O mínimo que posso fazer é soluçar, deixar sair. O soluço é livre, penosamente livre. Espontâneo, me puxa do fundo e me chama à superfície. Antes eu não queria a superfície. A verdade é que eu quis ir ao fundo, desconstruir tudo. Na falta de crenças encontrei palavras. Na ausência me encontrei. Afinal: quem é que respondia quando chamavam meu nome?
Não sei se a falta de consciência toma a liberdade. Acho que não: quem me toma a consciência senão eu mesmo, livre, escolhendo a superfície? Forjando sem perceber e deixando forjar o meu Tipo, que bem poderia ser meu rosto. Tantas ações feitas por ninguém senão pelo Tipo, pintado na parede. Não há brechas para a lacuna, para a página em branco. O Tipo diz o que achar. E é obvio, porque eu sou o tipo; já que daqui a cem anos, estando morto, quem responderá por mim será aquele retrato pendurado. Não há motivo para não ser assim.
Dando susto e fazendo pular da cadeira, a moldura do quadro soltou: ele caiu e quebrou. Olhei pra ele, desamparado no chão, e percebi que não acreditava mais nele. A superfície não era mais lugar pra mim: só restava ir ao fundo. E foi lá que me vi como sou: tão claro no que me define, tão impreciso no que não me tange. É assim que deve ser, não? Por que responder ao que não me move? Assustei-me ao perceber a quantas coisas era indiferente.
Não sei se a falta de consciência toma a liberdade. Acho que não: quem me toma a consciência senão eu mesmo, livre, escolhendo a superfície? Forjando sem perceber e deixando forjar o meu Tipo, que bem poderia ser meu rosto. Tantas ações feitas por ninguém senão pelo Tipo, pintado na parede. Não há brechas para a lacuna, para a página em branco. O Tipo diz o que achar. E é obvio, porque eu sou o tipo; já que daqui a cem anos, estando morto, quem responderá por mim será aquele retrato pendurado. Não há motivo para não ser assim.
Dando susto e fazendo pular da cadeira, a moldura do quadro soltou: ele caiu e quebrou. Olhei pra ele, desamparado no chão, e percebi que não acreditava mais nele. A superfície não era mais lugar pra mim: só restava ir ao fundo. E foi lá que me vi como sou: tão claro no que me define, tão impreciso no que não me tange. É assim que deve ser, não? Por que responder ao que não me move? Assustei-me ao perceber a quantas coisas era indiferente.
Só que eu não tinha passe para ser indiferente a tudo isso. Não podia: lá de cima todos me olhavam com cara de confusos, e apontavam. De início pouco liguei, mas com o tempo fiquei incomodado. Não dava. Não podia ser lacunoso diante de tantas perguntas e decisões. Hoje, diga-se de passagem, já são mais dez a responder: estão na listinha aqui ao lado, esperando o fim do texto.
O soluço me chamou: precisava de um novo Tipo. No auge da consciência pude montá-lo, pintá-lo, dar os retoques. Pude preencher os espaços vazios com o conteúdo que sobrava em outros cantos. Espaços vazios estes que responderiam por mim no futuro. Abracei a consciência como amante, e ela me disse todas as verdades sobre mim ao pé do ouvido. Só que eu sou um péssimo amante: resolvi chutá-la. Ela me deixou nu em público, diante de todos. Eu não esperava isso. Pelo menos posso dizer que valeu a pena: agora sei como me pareço, e pude pintar no quadro um Tipo que responda melhor por mim.
Espero que eu o deixe falar por mim.
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Ainda não gosto muito dele: escreveu um texto tão diferente do que eu acreditava ser. Mas ele me olha agora, dá de ombros e diz: "É assim que você se parece, e deveria ser."
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