terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Telephonista

Bom dia, me ligue com aquela moça que acordou pensando em me dizer algo. Só dela quero ouvir coisas, e só aquele algo eu quero ouvir. Canso-me do que é meu, e pra ser sincero já estou cansado de mim. Não sei nem como me aguento. Você se aguenta, Telephonista? Eu já estou farto mesmo deste telefone, pelo qual só se fala alto e bem claro, com boa dicção para que tudo se entenda. Entender tudo é chato, né? Já é uma aflição na hora em que atendo, sei que serei obrigado a decifrar e não gosto. Decifrar-me já é um trabalho penoso que paga mal, decifrar os outros é escravidão. Ai que tédio esse fio preso que já parece me contar que nada daqui vai dar em lugar algum. De boa dicção e ideias claras não se vai a lugar algum, já devia saber. Sinto falta do sussurrado nessa conversa. Não adianta tentar falar sussurrado, Telephonista, não precisa, ninguém nos ouve mesmo. Não é sussurrado de segredo, então. Entende? O sussurrado aqui não existe, é apenas voz baixa saindo do mesmo aparelho. Não tem o ritmo da respiração e não tem o calor da pele. O segredo é o de menos. Não vá se meter a falar sussurrado com os clientes, agora. E não vá sair do trabalho gritando que trata-se de escravidão. Amanhã olha o telefone, que eu ligo de novo. Saberá que sou eu, porque além da voz reconhecerá a falsa procura pela moça que acordou pensando em dizer algo. Poderemos sussurrar contra este aparelho, na nossa brincadeira. E um dia nos esbarramos. Até, Telephonista.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Pensando em rabiscos IV

então não me venha com saudades chorar me fazer sentir respirar o Amor que eu não ouso afogar esse que você me dá é amor e é coadjuvante do seu Medo e da sua Conveniência frios e indelicados demais pra mim meu Amor não se alimenta de saudades lágrimas que não juntam não são Lágrimas mas sorrisos amarelos de adeus antes outro Sorriso o vestido de alça pendurado no ombro quase caindo ou será o tremular da roupa do teu corpo nu ou Sorriso com os olhos pés pra frente e pra trás sem a menor intenção de se equilibrar e voz de amar eu sou eu estou mas não adia não exagera ou um dia eu passo

não estranhe a pontuação leia como quiser recomendo que não se engane ou que se engane com as maiúsculas

nesse achados & perdidos me dirão os que se creem achados que sem Limites acabamos nos perdendo e perdendo também o sentido e dirão outros quem quiser que os chame de perdidos somente sem limites é que podemos entender somos Perdidos mesmo e o sentido é este cada um escolhe

confesso que sou o Culpado não tirei todas as demarcações as quebras de linha ainda estão ai pra se ver alguma coisa especial nisso tudo

eu vejo o texto e você

Relógio


Era como um uniforme: a camisa pesada, o sapato desconfortável, a calça, e a mesma cabeça de ontem. Olhando no espelho, sentiu que se tirassem o corpo, a roupa ficaria ali em pé sozinha, encarando seu reflexo. E quando saiu andando, foi a roupa que fez força: o corpo apenas aceitou. O corpo já havia sido prometido à roupa. Era casamento arranjado.

Buscou um toque de vaidade, procurando com um olhar morno, de quem sabe - não é fato, mas sabe - que o ontem se projeta no hoje. A mão, se demorou, não foi por fraquejar, mas desviar. Era o pulso livre, que não condiz com o matrimônio celebrado. Faltava. Quando soube, a mão foi certeira. Pontualidade calculada. Nem mais nem menos. Agora era ele, de relógio. Ele e O Que Ele Deve Ser: até que a morte os separe.

Pensando em rabiscos II

Não me decifra, Eu não
Pedi, eu só disse
O que precisava sair
E respirar. Puro ar.
O meu é de dentro
Para fora, eu
Expus, me expus.
O seu não deve ser de dentro
Para fora. De fora
Para dentro. Mas saiba que quando tenta me decifrar
Não dirá nada
Sobre mim      ,
Sobre você.

Pensando em rabiscos

Esses olhos teus
Me empresta?
Reflexo
Refletem o mundo
Refletem os meus
No mundo
Seu

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Carta ao irmão


Estou surpreso como não poderia deixar de estar. Mudei na mudança.

Estou indo tão mais longe agora
Do que quando quis longe
Acho que tem que ser compulsória
Não pode ser escolha
Não pode ser tão livre 
A liberdade carrega uma certa leviandade
De quem faz por prazer
Tem que ser um pouco sofrido
No mínimo um pouco
E tem que ser em conjunto
Não se faz drama sozinho: drama se faz a dois.
Mesmo que seja pra deixar de ser.

E no que mudei?

Em mim, nos meus olhos, no meu respirar, nas lágrimas, nas palavras.
Estou em algum tipo de comunhão ingrata que não quer deixar de ser, e se alimenta do nada.
Precisa do nada: se for preenchido, acaba.

Se tenho escrito?

Não, só falado.
E lido.
E chorado, dançado.
Parece que tô dançando o tempo todo: tentando seguir 
um ritmo.

Hoje eu tava de um jeito.
Até que resolvi botar uma música alta
Lembrei sabe, da C., que diz que põe música e dança 
no quarto. Só no quarto? Na vida.
Não era isso, mas eu lembrei da C.
Coloquei uma música
deitei na cama e fui me esticando,
ou contorcendo.
De repente tive vontade de chorar
e comecei a chorar, não tem mistério.
A música guiava meus movimentos
me encolhendo ou tentando expulsar
Deixando respirar e depois
atacando.
Acho que cheguei num nível de profundidade que tudo 
me provoca de uma forma inimaginável

você imagina? eu não consigo ter
raiva, não consigo ter dó.
Eu passei, passei com tudo
que poderia levar do que já não
é.
E não é
nem fingimento.
E o que me resta, ... É
engraçado, porque de verdade, o que me resta é
. Tudo

domingo, 13 de novembro de 2011

Soluço

Não peço rascunho para falar de liberdade. O mínimo que posso fazer é soluçar, deixar sair. O soluço é livre, penosamente livre. Espontâneo, me puxa do fundo e me chama à superfície. Antes eu não queria a superfície. A verdade é que eu quis ir ao fundo, desconstruir tudo. Na falta de crenças encontrei palavras. Na ausência me encontrei. Afinal: quem é que respondia quando chamavam meu nome?

Não sei se a falta de consciência toma a liberdade. Acho que não: quem me toma a consciência senão eu mesmo, livre, escolhendo a superfície? Forjando sem perceber e deixando forjar o meu Tipo, que bem poderia ser meu rosto. Tantas ações feitas por ninguém senão pelo Tipo, pintado na parede. Não há brechas para a lacuna, para a página em branco. O Tipo diz o que achar. E é obvio, porque eu sou o tipo; já que daqui a cem anos, estando morto, quem responderá por mim será aquele retrato pendurado. Não há motivo para não ser assim.

Dando susto e fazendo pular da cadeira, a moldura do quadro soltou: ele caiu e quebrou. Olhei pra ele, desamparado no chão, e percebi que não acreditava mais nele. A superfície não era mais lugar pra mim: só restava ir ao fundo. E foi lá que me vi como sou: tão claro no que me define, tão impreciso no que não me tange. É assim que deve ser, não? Por que responder ao que não me move? Assustei-me ao perceber a quantas coisas era indiferente.

Só que eu não tinha passe para ser indiferente a tudo isso. Não podia: lá de cima todos me olhavam com cara de confusos, e apontavam. De início pouco liguei, mas com o tempo fiquei incomodado. Não dava. Não podia ser lacunoso diante de tantas perguntas e decisões. Hoje, diga-se de passagem, já são mais dez a responder: estão na listinha aqui ao lado, esperando o fim do texto.

O soluço me chamou: precisava de um novo Tipo. No auge da consciência pude montá-lo, pintá-lo, dar os retoques. Pude preencher os espaços vazios com o conteúdo que sobrava em outros cantos. Espaços vazios estes que responderiam por mim no futuro. Abracei a consciência como amante, e ela me disse todas as verdades sobre mim ao pé do ouvido. Só que eu sou um péssimo amante: resolvi chutá-la. Ela me deixou nu em público, diante de todos. Eu não esperava isso. Pelo menos posso dizer que valeu a pena: agora sei como me pareço, e pude pintar no quadro um Tipo que responda melhor por mim.

Espero que eu o deixe falar por mim.

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Ainda não gosto muito dele: escreveu um texto tão diferente do que eu acreditava ser. Mas ele me olha agora, dá de ombros e diz: "É assim que você se parece, e deveria ser."